Este post trata
de alguns
efeitos positivos da tradição africana/guineense e
deverá ser articulado com o próximo texto, que se debruçará sobre alguns
aspectos negativos. Só olhando para estas duas facetas podemos compreender a importância da
tradição na sociedade africana/guineense.

A esmagadora maioria das tradições da
África/Guiné-Bissau caracteriza-se pela “extensibilidade” e pela poligamia. Em África (e em particular na
Guiné-Bissau) não é normal uma mulher ter mais do que um marido em simultâneo (poliandria),
pois o habitual é um homem ter várias esposas ao mesmo tempo (poligamia) (Dias, 1974
citado por Djaló, 2012: 25-29; Mendes, 2010: 18, 64-65, 81-84).
Com base nesta ordem de
ideias, posso destacar alguns aspectos
positivos da poligamia de
certos [sub]grupos étnicos, por exemplo, uma das questões importantes da tradição africana/guineense está no facto de
ter, indirectamente, fornecido
à ciência moderna – “ocidental/europeia” – pistas
e intuições para as suas
descobertas. Embora ninguém tenha referido esta questão explicitamente,
considero que os valores associados à matrilinhagem
como critério da herança do
reinado constituem pistas primitivas para as descobertas
efectuadas sobre o ADN. Quem herdava do Régulo era o filho da sua irmã, porque, ao
contrário dos seus filhos (que poderiam não ser seus, caso as suas mulheres
fossem infiéis), ele tinha a certeza que os
seus sobrinhos por parte da
sua irmã eram realmente do seu sangue. Ou seja, as tradições antigas, apesar de
aparentemente atrasadas, revelavam algumas intuições
que só viriam a ser confirmadas mais tarde pela ciência. Aparentemente poderá
parecer que este sistema de matrilinhagem esconde uma atitude de valorização da
mulher (neste caso, a irmã do Régulo). No entanto, apenas demonstra que a
tradição valoriza os laços de
sangue, os únicos vínculos fortes o suficiente para escaparem à
desconfiança masculina (Kosta, 2007).
Nesta linha de pensamento, Karl Popper (1902-1994)
legitima, por um lado, este ponto de vista quando apresenta esta mesma ideia
nos seus livros «O Mito do
Contexto» e «Conjecturas & Refutações», ao referir que os mitos
pré-científicos podem conter importantes antecipações
de teorias científicas que
poderão só se desenvolver muito mais tarde (Popper, 2006: 62; 2009: 69-70,
250). E, Paul Feyerabend (1924-1994), por outro lado, devido ao seu forte humanismo e à
preocupação com o respeito por
todas as formas de conhecimento, reconhece que existem diferentes tipos de
ciência além da ciência ocidental que, em muitos casos, em nome do “progresso”, destruiu, em
muitos locais do mundo (em especial, África/Guiné-Bissau), conhecimentos valiosos e
significativos. Indo mais longe, Feyerabend defende que não existe uma
fronteira entre ciência e não ciência ou entre ciência e história. Ao
contrário, a ciência deve
olhar para tudo o que está ao seu dispor (mitos,
preconceitos, fantasias, etc.), para melhorar. Deste modo, a ciência seria posta no seu lugar,
enquanto uma forma interessante de conhecimento, possuidora de muitas vantagens
mas também de muitos inconvenientes (Feyerabend, 1993: 13, 51-55, 214).
Nas minhas entrevistas
a vários Régulos da Guiné-Bissau, percebi que este fenómeno está enraizado na tradição de algumas etnias, sendo
um costume muito antigo, que se reflecte no acesso a lugares de chefia. (Mango, 27-05-2013). De um modo geral, não é aconselhável o
casamento de um Régulo com as mulheres
de outras etnias, porque altera o direito de sucessão – «Era proibido,
naturalmente. Porque o filho que resulta desse casamento carece de legitimidade para ser
Régulo, caso houver um candidato de peso ao trono/Poder, por causa dos
quatro avós da linhagem do Régulo [princípio “4
dona”] (…) é possível casar com alguém de uma etnia diferente, mas o filho
do Régulo terá dificuldade em
ficar no Trono/Poder» (Cá, 27-05-2013; Mango, 27-05-2013; Mendes, 2010:
69-74).
Hoje em dia, verificamos o impacto desse costume muito antigo na sociedade guineense,
nomeadamente através da Constituição
da República da Guiné-Bissau «CRGB»,
que define como critério de elegibilidade para o lugar de Presidente da
República «PR» o facto de se ter quatro
avós guineenses (CRGB, 1996,
artigo 63º; Kosta, 2007: 221, 712-718; Silva, 2010: 9, 221). A CRGB é uma cópia da Constituição
da República Portuguesa «CRP»
(2003: 55 art.-122º), que também importou este princípio da monarquia portuguesa. Sendo
assim, não tem razão quem fundamenta que, na
realidade, a tradição não tem um papel
activo no Estado pós-colonial guineense, porque a tradição guineense
enquadrou-se na democracia do Estado pós-colonial ao mais alto nível da hierarquia do Poder (Kosta,
2004: 62-79). Se África é o berço da Humanidade, temos aqui a prova de que essa
origem não está perdida.
Devido à existência de famílias muito numerosas e à falta
de meios de subsistência, é frequente os africanos/guineenses entregarem a educação dos seus filhos a
familiares ou amigos com mais
meios e possibilidades. Este facto gera, muitas vezes, rupturas e conflitos
intrafamiliares que se
perpetuam por gerações. Estas práticas
sociológicas poderiam ser a
base para o surgimento das novas
instituições características
das sociedades modernas ocidentais no que respeita aos serviços sociais
(creches, infantários e eventualmente residências estudantis). Estes serviços
são importantes para a criação
de emprego e para valorização do mérito dos cidadãos africanos/guineenses (Djaló, 2012;
Kosta, 2004; 2007; Lopes, 1999; Obenga, 2013).
No entanto, aceito o conselho do Professor Catedrático Viriato
Soromenho-Marques quando
admite que existe um risco muito grande de as elites
pós-coloniais africanas/guineenses, autóctones, poderem cortar com a
tradição, pensando que a tradição está ligada a aspectos negativos quando, «na
verdade, a tradição é grande
parte daquilo que nós somos, não é? E nós temos
que respeitar as nossas raízes. Portanto, a
modernidade não significa esquecer (…)
significa seguir em frente, lembrando tudo aquilo que se viveu…Eu diria que
qualquer política democrática no futuro da Guiné-Bissau/África vai ter de investir muito no papel da
história, no papel da cultura, no papel da governação das pequenas comunidades (…)» (Soromenho-Marques, 20-09-2013).
Bem trabalhadas, as tradições poderão tornar
a sociedade e a convivência entre africanos/guineenses melhores. Mas, para
salvaguardar estas fontes de conhecimento, será necessário complementar as tradições orais com as tradições escritas. E
distinguir aquilo que é benéfico e deve ser preservado, daquilo que põe em
causa o bem-estar e a dignidade dos cidadãos. No próximo post procurarei complementar estas ideias,
debruçando-me, desta vez, sobre os aspectos
negativos da tradição, que poderão ser melhorados.
Para mais informações,
consultar o meu livro: Mendes, Livonildo Francisco (2015). Modelo Político Unificador – Novo Paradigma de Governação
na Guiné-Bissau (pp. 57-58, 225, 246,
258, 264-265, 272-274, 457-458). Lisboa: Chiado Editora.
Meu nome é Okamte Zabane. Sou natural da Ilha de Pecixe, de família real. Herda-se a “reinança” através da linhagem materna.
ResponderEliminarEm 19 de outubro de 1955, com apenas 21 anos de idade e sem muita experiência, eu fui consagrado Rei da Ilha de Pecixe. O Estado me concedeu um conselheiro. Seu nome era Manoel da Silva que reuniu certos homens e decidiu que deveria construir uma casa nova com todo o conforto para o regúlo Okamte pudesse reinar com toda liberdade. Régulo é o nome que dão ao rei de uma pequena nação.
Não me foi permitido ocupar a antiga casa real. Segundo o conselheiro, a casa estava velha. Eu teria a minha própria casa. Durante todo o tempo da construção também fui proibido de ver o que estava acontecendo.
Somente depois de pronta tive a permissão de entrar nela. Na sua inauguração, seguida da posse, houve seis dias e seis noites de festa. Havia muita carne, bastante vinho, música e danças. https://apalavracomoe.blogspot.com.br/