Neste blogue, sobre a política e sobre os políticos, procuro fazer uma análise atenta, crítica e construtiva, tanto quanto possível, imparcial, dos fenómenos políticos na Guiné-Bissau, mas também em outros países.
Como dizia De Gaulle: a Política, como a vida, é um combate ao serviço dos outros.
Na maioria dos posts, existem hiperligações, de cor azul escuro, nas quais basta clicar para ter acesso às notícias, outros posts etc.
Magníficos leitores, no post de hoje faço uma síntese sobre o impacto da saída do Reino Unido[1] «RU» da União Europeia «UE». No Domingo avançarei com novos temas sobre a Guiné-Bissau,
nomeadamente a declaração de Baciro Djá, a ameaça de “Manelinho” a Inum Embalô;
a estadia do Presidente da República José Mário Vaz em Portugal; a estratégia do silêncio do
ex-Primeiro-Ministro e presidente do PAIGC Domingos Simões Pereira e a retoma
dos problemas no Parlamento guineense.
O termo “brexit[2]”
é uma fusão de duas palavras inglesas: “britain”, é o diminutivo para Grã-Bretanha (ou, para ser mais correcto
em termos políticos, para Reino Unido), e “exit” significa “saída”. Na tradução literal para o
português, significa, então, “saída Britânica”. A decisão sobre a saída do RU
da UE foi tomada a partir de um referendo
popular[3], realizado a 23 de junho de 2016. Com 51,9% dos votosafavordasaída, a maioria dos cidadãos britânicos optou
pelo brexit, contraos48,1% dos votosqueapoiavamapermanênciadoEstadonaUE (para uma análise mais detalhada, recomendo a entrevista a Paulo Portas cujo vídeo se encontra no final deste post, TVI24, 24-06-2016). O RU é
formado por quatro países
constituintes: Inglaterra, Escócia, IrlandadoNorte e PaísdeGales
(politicamente, os quatro países estão unidos, mas mantêm a sua autonomia em
relação a alguns aspectos como o desporto, por exemplo). A maioria dos
eleitores da Inglaterra e País de Gales votaram a favordasaída,
enquanto grande parte dos cidadãos da Escócia
e Irlanda do Norte se manifestaram
por permanecernaUE.
O principal discurso dos defensores do brexit assenta na
ideia do nacionalismo tradicional,
apoiado por ideais anti-imigração. O
Reino Unido aderiuàComunidadeEuropeiaem1973, mas, suportado pelaforça da sua moedalibra, sempre se recusou a adoptar a
moedaúnica europeia, o euro, e não
aceitou integrar o Acordo de Schengen
(relativo à livre circulação). Londres (Inglaterra) tem mantido um braço de ferro com Bruxelas em relação ao tratadoorçamentaleuropeu e ameaçou vetar o documento. Além disso, a crise de refugiados e a gestão europeia da mesma não ajudaram (Euronews,16-02-2016).
Para a saída foi invocado o artigo 50
do Tratado de Lisboa, que prevê que
qualquer Estado-membro da UE tem a liberdade para sair da UE de modo voluntário e unilateral. Também fica
determinado que o prazo máximo para as negociações
de saída é de dois anos, caso não
haja uma decisão unânime que prorrogue este tempo. Com o Brexit, o RU entra
para a história como o primeiro
Estado-membro a sair da UE[4](Significados, 01-07-2016).
A vontade do
eleitorado do RU deve ser respeitada,
mas também devemos recordar que o RU, apesar de ser uma potência que lutou
contra a hegemonia de Napoleão, de Bismarck, de Hitler,
etc., nas últimas décadas tem contribuído para a queda de muitos países africanos e do MédioOriente – Líbia,
Egipto, Síria, Iraque, Afeganistão, Líbano, etc., contribuindo para o grande fluxo
migratório que hoje se verifica (desses países para a Europa/Ocidente). O
Brexitcausoualgumaansiedade junto dos países cujos cidadãos se encontram a
viver e a trabalhar no RU. O Governoportuguês, por exemplo, aconselhou aos imigrantesportugueses que pedissem autorizações de residência, de forma a garantirem uma
situação mais estável e segura (RTP1, 24-06-2016) – douomesmoconselhoaosimigrantesafricanos/guineenses.
Muitos paísesocidentaisnão vêem esta imigração com bonsolhos, esquecendo o seu papel na ruína
desses países, desde a colonização,
escravatura, pilhagem de recursos, divisão
de África, sucessivas invasões e ataques até aos dias de hoje. Retomando
a ideia de Deng Xião-Ping, de que «a
cor do gato não interessa, desde que apanhe o rato»[5], volto a reiterar/reforçar a minha posição favorável relativamente à
emigração/imigração[6],
na medida em que todos devem ter o direito
de procurar uma vida melhor e devem ser aceites no local que escolhem para
viver. Até porque os cidadãosestrangeiros que são acolhidos podem trazer um
grande contributo ao país de
chegada. Temos, por exemplo, o caso
de Calouste Sarkis Gulbenkian, um
cidadão de origemArménia, mas de nacionalidadebritânica, que nasceuemIstambul (Turquia) e viveuemLisboa (Portugal) de 1942 a 1955 (ano da sua
morte). Doou a sua fortuna ao Estado
português, a qual deu origem à FundaçãoCalousteGulbenkian que tem um
papel de destaque no desenvolvimento da Ciência, em Portugal e no mundo
(Correio da Manhã, 16-06-2006; Mendes, 2010: 88).
Ressalvo, obviamente, que a imigração gera situações
complexas e por vezes, tensas, que devem ser resolvidas de forma o mais pacífica possível pelos Estados,
salvaguardando sempre o respeito pelos
direitos humanos. Tudo isto não
desresponsabiliza os Estados e dirigentesafricanos/guineenses, que devem fazer tudo o
que está ao seu alcance para dar as melhores
condições de vida possíveis aos seus cidadãos.
Não se
esqueçam de voltar no Domingo, para mais um post “quente” sobre a política
guineense…
[1] Os interessados em conhecer o papel do
Reino Unido contra a hegemonia Franco-Alemã (França e Alemanha), ao longo da
história até aos dias de hoje, recomendo ler o “Subcapítulo – II: Conferência
de Berlim – Causas e Efeitos da Conferência para a Guiné-Bissau/África” e também as páginas 243-244 do meu livro (Mendes, 2015: 119-131, 243-244).
[2] O termo remonta à discussão sobre uma
possível saída da Grécia do euro, em 2012. À época, estava em voga a palavra
Grexit, que veio a originar, posteriormente, o termo brexit (BBC, 17-07-2016).
[3] Recomendo aos interessados que leiam a
página 386 do meu livro para se informarem sobre o que é uma eleição, o voto, o
referendo e o plebiscito (Fernandes, 2010: 210-213; Pasquino, 2010: 142-143).
[4] Alguns analistas dizem que esta será a
decisão mais importante para os britânicos desde 1975, quando o voto de dois
terços do eleitorado determinou o ingresso na então Comunidade Económica
Europeia (BBC, 17-07-2016).
[5] Tal como já defendi anteriormente não importa a nacionalidade, raça, sexo, grupo étnico, cor da pele, ideologia
partidária, deficiência, desde o momento que a pessoa partilhe o espírito do
patriotismo guineense e seja competente para contribuir no processo de
desenvolvimento da Guiné-Bissau (Mendes, 2010: 88;
2015: 529).
[6]Emigração diz respeito à saída de
alguém do seu país para se fixar noutro país, do modo temporário ou definitivo;
Imigração significa entrar e fixar-se num país estrangeiro, de modo temporário
ou definitivo, em geral para assegurar trabalho e melhorar as condições de vida
(Dicionário Verbo, 2006: 401, 595).
O post de hoje é um pouco extenso, com diversos tópicos relevantes da actualidade da
Guiné-Bissau. Na primeira parte,
falo sobre os avisos da União Africana «UA» ao Presidente da República «PR»
José Mário Vaz «Jomav». Na segunda parte,
sobre o relatório relativo à justiça guineense da relatora para as Nações
Unidas «NU» Mónica Pinto. Na terceira
parte, abordo as declarações do embaixador dos EUA na Guiné-Bissau sobre as
relações entre os dois países. Na quarta
parte, louvo a criação de uma Associação dos filhos de antigos combatentes
guineenses que lutaram por Portugal na Guerra Colonial (Comandos Africanos) na
Guiné-Bissau. Na quinta parte, faço
uma análise sobre a criação de um novo partido político na Guiné-Bissau. Na sexta parte, toco na questão da
rescisão de contratos entre o Governo e os bancos comerciais. Finalmente, na sétima parte, apresento Botche Candé
como o “Paulo Portas guineense”, pela sua irrevogável declaração de que não
tomaria posse neste Governo.
Primeira
parte. A União
Africana «UA» pediu ao PR da Guiné-Bissau que promova o respeito pela Constituição como uma das
medidas para resolver a prolongada crise
política no país, apelando também aos actores sociais para que coloquem “os melhores
interesses do país acima de
quaisquer considerações pessoais ou partidárias". A UA lamentou que,
apesar de inúmeros esforços de mediação
da comunidade internacional, as divergências se tenham aprofundado, em
particular entre o PR e a liderança do PAIGC. O comunicado da UA avisou ainda
que a Guiné-Bissau se arrisca a perder
os mil milhões de euros prometidos por doadores
em 2015 (Voz da América, 16-06-2016).
Estas declarações da UA parecem ser só
“para inglês ver”, ou seja, sabendo que a UA é claramente pró-Jomav, estas afirmações têm como objectivo causar agitação e “alergia” na ala pró-Domingos Simões Pereira «DSP». Se a UA quisesse
mesmo ajudar, teria tido um peso forte
ao longo da crise na Guiné-Bissau – e não emitiria apenas pareceres e recomendações,
enviando emissários que em nada contribuem para a resolução do problema. Até porque o financiamento principal não provém da UA, pelo que estas "ameaças" não passam de palavras vazias de "corta-fitas". Aconselho os responsáveis guineenses a dar mais atenção, por exemplo, ao
trabalho que está a ser feito pela Comissão
para a Conferência Nacional de Reconciliação, liderada pelo Padre Domingos
Fonseca, e às posições assumidas por Filomena Mascarenhas Tipote, enquanto
representante da Voz di Paz (RDP África, 23-05-2016).
O Governo poderá e deverá trabalhar em parceria com estes agentes
para evitar eventuais erros que possam minar a credibilidade do país.
Segunda parte. Segundo a argentina Mónica Pinto, relatora independente para as Nações Unidas, a situação do sector
da justiça na Guiné-Bissau é assustadora e reformá-lo é uma tarefa
monumental. Segundo a relatora, "Apesar das descobertas assustadoras,
parece que o sistema de justiça tem tido dificuldades em obter a atenção das autoridades" com vista
à reforma necessária. Embora a
tarefa seja monumental, há "uma nova
geração de profissionais dispostos e capazes de melhorar" o sector,
acrescenta. O relatório inclui 37
recomendações importantes que abrangem várias áreas, desde a investigação criminal
à instrução de processos (Sapo Notícias, 15-06-2016).
Este
relatório baseia-se numa visita da relatora à Guiné-Bissau em Outubro de 2015, pelo que será legítimo
questionar a sua actualidade, pondo
em causa a análise do contexto realizada. Há prazeres que devem ser servidos
quentes, e este relatório já está
completamente frio. Contudo, tenho de reconhecer que os conteúdos deste
relatório parecem assentar nos problemas
reais, que já tinham sido identificados pelo intelectual guineense Basílio Sanca. O Bastonário da Ordem
dos Advogados da Guiné-Bissau defende uma «reforma
integral a nível nacional na área da justiça» e da advocacia. Basílio Sanca
reconhece a existência da corrupção
na Guiné-Bissau, em especial no campo da justiça, afirmando que esta se deve
essencialmente ao “Sistema”, que está mal montado e deve ser revisto porque não
corresponde à realidade do país (Rádio Sol Mansi, 08-02-2016).
Terceira parte. O embaixador dos EUA na Guiné-Bissau, James
Peter, declarou que os EUA continuam determinados em apoiar a Guiné-Bissau no seu processo de desenvolvimento, apesar da
crise política vigente no país. O diplomata elogiou o papel do Supremo Tribunal de Justiça «STJ» no
actual processo da crise política e destacou que em qualquer sistema político a
existência de instituições judiciais e
judiciárias fortes e independentes são cruciais para a estabilidade
democrática. Segundo o embaixador, os EUA não
se posicionam a favor de um partido A ou B e continuarão a apoiar os esforços
dos oficiais das Forças Armadas através de criação de novas parcerias na capacitação e na profissionalização dos
militares” (Rádio Sol Mansi, 09-06-2016).
Finalmente,
depois dos meus múltiplos “ataques”
aos EUA (por exemplo, neste poste também neste e neste), o embaixador decidiu prestar declaraçõesapaziguadoras.
Não pretendo acusar directamente os EUA – o que pretendo é que haja uma política equilibrada em termos de
cooperação. Os EUA estão, aliás, contemplados na minha proposta de mudança,
como uma das principais potências com preferência para instalar uma base
militar numa das ilhas da Guiné-Bissau (além do Alemanha, Reino Unido, Rússia,
etc.).
Quarta parte. Foi legalizada a Associação de viúvas e filhos de ex-combatentes
guineenses que lutaram por Portugal
na Guerra Colonial na Guiné-Bissau. Elogio
esta iniciativa, mas sugiro que incluam também nesta associação outras vítimas
daquele conflito como, por exemplo, filhos dos antigos funcionários da Administração Colonial, ou dos régulos que foram
perseguidos por apoiarem Portugal. Este tipo de movimentos pode contribuir para
uma maior solidariedade e coesão,
favorecendo a reconciliação que
tenho vindo também a defender. Tanto o Estado português como o Estado
guineense devem cumprir as suas obrigações para com as famílias das vítimas deste conflito (incluindo os
soldados), para que não haja desequilíbrios entre os filhos dos antigos combatentes do PAIGC e os filhos dos
antigos Comandos Africanos e outros
aliados de Portugal. Todas estas propostas estão bem detalhadas no meu livro e também na minha dissertação de Mestrado (Mendes, 2010: 97).
Quinta parte. O Supremo Tribunal de Justiça da Guiné-Bissau
aprovou o processo de legalização do Partido
para a Justiça, Reconciliação e Trabalho – Plataforma das Forças Democráticas
(PJRT-FD). O PJRT-FD é liderado por Malam
Nanco, empresário guineense, atualmente presidente da associação comercial
do país (Sapo Notícias, 14-06-2016).Com a legalização do PJRT-FD, de acordo com o
meu estudo, a Guiné-Bissau passa a contar com 42 partidos políticos legalizados, para um universo eleitoral de
cerca de 700 mil eleitores, num país
com 1,5 milhões de habitantes
(Mendes, 2015: 382, 440).
Verifica-se
claramente que esta multiplicidade
excessiva de partidos políticos não
é a solução ideal para a Democracia. Qual será então? Segundo o Cientista Político britânico Anthony Giddens
(2006), o grande envolvimento dos cidadãos na política está mais relacionado
com o associativismo do que com o
facto de ter uma filiação partidária.
Sendo para isso necessário apostar na sociedade
civil que inclui a família e outras instituições de natureza não económica.
A sociedade civil é um fórum onde as atitudes democráticas, incluindo a tolerância, têm de ser cultivadas
(Giddens, 2006: 76-77; Rudebeck, 1997: 44-47; Teixeira, 2008). Seria importante
que a democratização da Democracia dependesse também do fomento de uma profunda
cultura cívica. Para que isso aconteça
é imperativo investir na Educação
para depois trabalhar a mudança de
mentalidades. A aposta na sociedade civil é um dos potenciais para o desenvolvimento do país, pois expressa o verdadeiro
sintoma dos cidadãos numa Democracia que não está fortemente estruturada
(Mendes, 2010: 79).
No meu
livro, defendi que, rigorosamente, não
existem partidos políticos na Guiné-Bissau, do ponto de vista dos
pressupostos da Ciência Política pura e dura. Neste sentido, apresentei uma
proposta que se enquadra na “lipoaspiração”/emagrecimento
partidária, em que a Guiné-Bissau
terá dois partidos políticos principais para
concorrer às eleições legislativas e presidenciais. Um terceiro partido servirá de pêndulo
da balança, isto é, para evitar aquilo que designo por “excesso de velocidade governativa” ou
de “velocidade excessiva da governação”.
Este terceiro partido – Governo de Manutenção e Coordenação - entrará em funções para substituir os órgãos superiores do Aparelho do Poder do Estado –
PR, Primeiro-Ministro «PM», Governo, Assembleia Nacional Popular «ANP»,
Ministros, Secretários de Estado, Procurador-Geral da República «PGR», Presidente de STJ, Presidente de Tribunal de Contas, Chefe
de Estado-Maior General das Forças Armadas «CEMGFA», etc., – que tenham terminado o seu mandato,
impedindo estes órgãos de continuar a ocupar, manter e exercer o cargo/Poder até ao empossamento dos novos corpos do
Aparelho do Poder do Estado recém-eleitos[1].
A
existência de muitos partidos políticos
na Guiné-Bissau não põe em causa a existência dos dois/três pilares partidários que proponho. Isto é,
independentemente destes dois/três pilares partidários, que têm o direito de concorrer às eleições primárias para a
escolha dos seus candidatos nas eleições presidenciais, legislativas, etc.,
os restantes partidos políticos guineenses poderão, em função dos seus
estatutos ou ideologias, associar-se a
um dos dois pilares ou investir numa acção mais focada a nível local ou regional.
Sexta
parte. O Conselho
de Ministros da Guiné-Bissau decidiu rescindir
o acordo com os bancos comerciais
privados a operar no país, que tinha sido assinado pelo Governo anterior, do ex-PM Carlos Correia (RDP África,
20-06-2016).
Os detalhes desta notícia ainda não foram
divulgados, mas recomendo que esta seja uma decisão bem estudada e ponderada. O peso dos bancos na economia é indiscutível, tanto positiva como negativamente, pelo que decisões deste tipo têm sempre grandes repercussões. Chamo apenas atenção para uma
questão importante: substituir alguém
não é sinónimo de invalidar tudo o que essa pessoa tinha feito antes de
nós. É necessário descartar os aspectos
negativos e aceitar os aspectos
positivos, assumindo um compromisso entre as ideias pessoais e a
prossecução do interesse público. A
concertação entre o actual e os anteriores Governos, além de todas as
partes interessadas, é fundamental para concretizar estes objectivos. Neste
sentido, este assunto poderá merecer um debate
público dos prós & contras, nos órgãos de comunicação social, por parte
de especialistas na matéria, para
que os guineenses, tanto no país como na diáspora, possam estar bem informados. Esta é uma oportunidade
para o Governo do PM Baciro Djá assumir
uma postura de honestidade e transparência, conquistando a confiança dos guineenses.
Sétima
parte. O PR Jomav conferiu no passado dia 17, posse
aos quatro membros do Governo em falta
no elenco governamental. A equipa empossada inclui o Ministro dos Negócios
Estrangeiros, da Cooperação Internacional e das Comunidades, o Ministro de
Estado e do Interior, o Ministro dos Recursos Naturais e o Secretário de Estado
do Orçamento e Assuntos Fiscais (O Democrata, 17-06-2016).
O cargo de Ministro de Estado e do
Interior ficou à responsabilidade de Botche
Candé, tal como se previa.
Anteriormente, Botche Candé disse ter sido convidado para o cargo pelo PR
através de telefone, tendo respondido que não
podia aceitar antes de consultar o seu partido. Apesar disso, afirmou que jamais trairia o seu partido, o PAIGC
(ANG, 03-06-2016).
O facto de o PR Jomav e o PM Baciro Djá não
desmentirem as alegações de Botche Candé, e de ele ter tomado posse, sugere
que Botche Candé foi obrigado a engolir as suas palavras.
Isto leva-me a comparar a atitude de Botche
Candé com Paulo Portas, que fez
um pedido de demissão do cargo de Ministro de Negócios Estrangeiros de Portugal, nas suas
palavras, “irrevogável”, mas acabou
por revogar o que tinha dito, regressando
ao Governo com o cargo de Vice-Primeiro Ministro (Jornal de Negócios, 23-07-2013).
Na minha opinião, a transformação de Botche Candé no “Paulo Portas guineenese” foi uma estratégia para tentar iludir a ala pró-DSP do PAIGC
relativamente à sua colaboração com Jomav. Além disso, esta sua nomeação é um grande paradoxo, já que o próprio PR o tinha demitido anteriormente das mesmas
funções. Resta saber por conta de quem
está Botche Candé no Governo – pela ala pró-DSP do PAIGC? Pelo PRS? Pelo
PR? Se for da parte do PR Jomav, e resistir até às próximas eleições, poderá contribuir para manter o PR, o
Governo e o PRS nas suas actuais posições de vantagem. Se estiver por conta
da ala pró-DSP, é porque pode virar o
jogo ao contrário, acabando por favorecer DSP na sua tentativa de
recuperação do Poder. Neste momento, Botche Candé é uma das peças mais importantes do xadrez político guineense (para
além do PR, do PRS e dos 15 Deputados expulsos/retornados). Jomav poderá estar encurralado, sem se aperceber, como o Rei de Baceâral ficou, depois da
Batalha de Kansala – entre a aliança
Mandinga (Biafadas, Balantas, etc.) e a aliança Fula (portugueses, cabo-verdianos, etc.).
Para terminar, quero deixar algumas reflexões sobre a actual situação de DSP e da sua ala. Perante o facto, cada vez mais
evidente, de que DSP está quase isolado
dentro do partido, as opções disponíveis parecem cada vez mais restritas.
Questiono-me se não seria uma jogada
inteligente se DSP e Carlos Domingos Gomes Junior «Cadogo Jr.» “apanhassem
boleia” [ou barriga de aluguer] de um outro partido político para se candidatarem às próximas eleições legislativas e
presidenciais, já que o PAIGC parece
ter-lhes virado as costas. E é aqui que o papel de Botche Candé se revelará
realmente decisivo. Se acontecer
algo deste género, a Guiné-Bissau sofrerá uma reviravolta completa na sua organização política.
Resta
ver como a situação evoluirá até às eleições.
[1] Tal como todos os seres
animados e inanimados necessitam de um período de descanso ou de intervalo para
funcionarem melhor, é assim que a Ciência Política precisa de colmatar uma das grandes
lacunas que nenhum sistema de governo, sistema de partido, sistema eleitoral e
regime político preencheu ao longo da História.
Prezados leitores, no
post de hoje debruço-me apenas sobre dois
temas: o apuramento da selecção
nacional guineense «djurtus» para o Campeonato Africano das Nações «CAN»,
em relação com a importância de investir
no desporto (primeira parte); e uma reflexão
sobre as ajudas internacionais, a partir do donativo recebido recentemente dos EUA para as cantinas escolares.
Primeira parte.A selecção nacional da
Guiné-Bissau conseguiu, pela primeira
vez na sua história, desde a independência, o apuramento para o CAN. Trata-se de uma grande vitória, que deve ser fortemente
elogiada (O Jogo, 05-06-2016).
A propósito disto, retomo algumas ideias sobre a importância do desporto. Do
meu ponto de vista, é importante investir fortemente no desenvolvimento do
desporto, em paralelo com as outras áreas. O desporto é um instrumento de coesão social e a concorrência para a liderança dos clubes pode reduzir o
grande conflito para alcançar cargos políticos. Olhamos para o Ocidente, onde
esta área constitui fonte de afirmação
(Poder, dinheiro, reconhecimento, etc.), e verificamos que há pessoas que
preferem ser presidentes de um clube de
futebol ou um grande futebolista/desportista
do que ser membros do governo. A mesma lógica se aplica a outras áreas, como, por exemplo, ser empresário, autarca,
agricultor, artista, e, na melhor das hipóteses, ir para a Universidade. Há
quem prefira ser académico ou universitário, ser reitor, investigador,
conselheiro, assessor, gozar de sabedoria, respeito, Poder, do que ter uma
tarefa política ou desportiva etc. No fundo, devemos valorizar os méritos de cada um, com base na diversificação das escolhas disponíveis (Mendes, 2010: 95).
Segunda parte. Chegaram ao porto de
Bissau 4 mil toneladas de arroz para
a alimentação escolar doados pelo Ministério da Agricultura dos EUA através do Programa Mundial de Alimentos «PAM». Este donativo permitirá
assegurar refeições quentes para 173 mil
crianças em mil escolas do país,
pretendendo-se também o incentivo às
famílias para que as meninas da 4ª à 6ª classe frequentem mais de 80% das
aulas, lutando assim contra o abandono
escolar. Dentro de alguns dias chegarão
ao país novos produtos entre os quais óleo vegetal, feijão e sardinhas, com
o mesmo fim (RadioSolMansi, 03-06-2016).
Sem querer desvalorizar
o contributo destes donativos para o
bem-estar das crianças e das famílias, importa analisar esta questão também numa outra perspectiva (até porque
este papel deveria ser desempenhado pelas autoridades guineenses e não pelos
EUA). Num relatório secreto da CIA,
de Agosto de 1974, a cientista americana Susan
George, revelou que no futuro haveria falta de alimentos e que isso poderia
vir a dar aos EUA um Poder inimaginável.
O mesmo havia já sido referido alguns anos antes pelo senador americano Hubert Humphrey que, discursando sobre a
importância da ajuda alimentar,
dizia «e se pretendermos que eles cooperem
efectivamente connosco parece-me que a dependência
alimentar será uma arma formidável» (Santos, 2003: 29-34) – não há frase
mais clara que esta declaração do senador americano. Bem analisados o relatório
e o discurso, encontramos provas de
que há armadilhas por toda África e para
todos os africanos. São provas claras que nos levam a perceber como é que líderes [governantes ou intelectuais] africanos são manipulados, corrompidos,
denunciados, descartados, prejudicam o
povo e acabam por perder os seus bens que posteriormente são reconvertidos
como empréstimos para África. Estas são boas razões para a mudança de mentalidades, do discurso e dos procedimentos (Kosta,
2007: 467, 654; Mendes, 2010: 77-78).
Para colmatar estes défices é urgente reduzir
as ajudas externas e ter menos
intervenientes no processo de distribuição destas ajudas com maior controlo do destino dos apoios
concedidos.
Algumas ajudas acabam
muitas vezes por revelar-se muito
prejudiciais, se forem avaliadas a longo
prazo, porque têm implicações
que só se revelam posteriormente: uma ajuda nunca é só uma ajuda, implica a retribuição daquele que é ajudado, seja
de forma directa ou indirecta. Por estas razões os dois fenómenos – ajudas
internacionais e investimentos estrangeiros – devem ser repensados num quadro de capital social como “investimentos nas
relações entre os Estados com proveitos esperados no mercado” (Lin, 2001: 19
citado por Portugal, 2007: 15).
Seguindo a mesma linha de raciocínio da minha obra,
defendo que se a Guiné-Bissau quer escapar
dos efeitos negativos das ajudas internacionais e investimentos
estrangeiros, a sua política de cooperação
para o desenvolvimento do país deve deixar de centrar-se só no envio de
dinheiro, géneros e técnicos [ou tecnologias], que actuam de forma pontual, que
acabam por desaparecer e não oferecem
assistência nem manutenção. O objectivo desta cooperação deve passar a ser,
pelo contrário, a formação de técnicos
locais na agricultura e indústria; o incentivo ao desenvolvimento de universidades e pontos de investigação na
Guiné-Bissau, para que os guineenses possam criar as suas próprias tecnologias,
e formar os seus próprios técnicos. Nas palavras de Confúcio: “é mais importante ensinar a pescar do que
oferecer o peixe” (551 a.C. – 479 a.C.). E isto tem também o seu
enquadramento nas palavras de James Shikwati: “quando damos a esmola a um mendigo e voltamos a vê-lo na rua no
dia seguinte, não podemos dizer que o
ajudámos. Ele continua a mendigar […]. Precisamos de tirar o mendigo da rua
[…]. Temos de descobrir as potencialidades desse mendigo […], pois, isso sim estaremos
a melhorar a sua vida”. O que implica que a Guiné-Bissau necessita é de uma chance para ser capaz de administrar e
canalizar a sua própria riqueza. Mas isto não significa que a Guiné-Bissau
deve deixar de cooperar com outros Estados, bem pelo contrário, deve cooperar, mas de forma inteligente (Mendes, 2010: 93; Schelp, 10-08-2005).
Prezados leitores, no
post de hoje abordo três pontos da
actualidade: o falecimento de Carmen Pereira, a quem presto homenagem (primeiro ponto); o possível
aproveitamento político desta situação (segundo
ponto) e o perigo do actual cerco ao Governo demitido/barricado (terceiro ponto).
Primeiro ponto. Começo este post
prestando homenagem a Carmen Pereira (1937-2016),
que faleceu inesperadamente no
passado sábado (Público, 05-06-2016).
Espero que descanse em paz e envio sentidas
condolências para a família. Num post anterior, tive a oportunidade de lhe desejar as melhoras e foi um choque receber esta
notícia. Morreu numa altura de grande
turbulência no país e no PAIGC, no entanto, considero que as divergências devem ser postas de lado –
não importa estar a favor da luta armada ou não, ser do PAIGC ou não, ser
pró-José Mário Vaz «Jomav» ou pró-Domingos Simões Pereira «DSP». O que importa
agora é pôr de lado o machado de guerra,
unindo-se para lhe prestar uma homenagem
condigna, que dignifique o
contributo que deu ao país. Na minha opinião, deve evitar-se a todo o custo
que se repita o que aconteceu no dia dos
Heróis Nacionais, em que houve uma alternância entre a Fortaleza de Amura e
o Cemitério Municipal de Bissau e não uma cerimónia
conjunta de todos os guineenses.
Para além de Carmen Pereira,
o mundo perdeu também Muhammed Ali «Cassius Marcellus Clay Jr.» (1942-2016), o maior pugilista de todos os tempos, um dos maiores desportistas do século XX, um defensor dos direitos humanos e homem
de grande força e coragem, cujo slogan também gosto de usar ("flutuar/voar como uma borboleta e picar
como uma abelha").
Estas duas perdas justificaram a minha decisão de abrir um precedente neste blogue – não costumo fazer estas homenagens
e não voltarei a fazê-lo de ânimo leve, mas os dois dias em que partiram Carmen
Pereira e Muhammed Ali [3 e 4 de Junho] coincidem com a perda das duas
primeiras mulheres do meu pai (entre elas, a minha mãe). Que a alma de todos eles descanse em paz.
Segundo ponto. O Governo demitido/barricado do ex-Primeiro–Ministro «PM» Carlos Correia emitiu um comunicado
decretando três dias de luto devido
ao falecimento de Carmen Pereira (RDP África, 05-06-2016). O Presidente da República «PR» declarou
também através de um comunicado que deveria ser organizado um funeral com honras de Estado e
decretado o luto nacional (Comunicado da Presidência da República, 05-06-2016).
O Governo do PM em exercício, Baciro Djá,
emitiu também um comunicado sobre este assunto, prevendo igualmente um funeral
com honras de Estado (RTP África, 06-06-2016).
À partida, as três partes estão coincidentes, no
entanto, o que não deve acontecer em momento algum é o aproveitamento político da morte de Carmen Pereira para tentar legitimar os seus interesses. Neste caso,
o Governo demitido/barricado de Carlos Correia, não estando em funções, deve pôr termo à emissão de comunicados
do Conselho de Ministros, respeitando o Governo em funções de Baciro Djá. Embora
a sua posição seja compreensível moralmente, em termos de respeito pela lei, estes comunicados não têm validade porque este Governo já não se encontra em funções. Além disso, seria muito indelicado se não participassem
presencialmente na despedida a Carmen Pereira, principalmente Carlos Correia e Manuel «Manecas» dos Santos, seus camaradas de luta.
Terceiro ponto. Neste momento,
continuamos a assistir a um “cerco” do Palácio
do Governo, sendo que o Ministério Público
deu, na sexta-feira [04-06-2016], 48
horas para a desocupação das
instalações (Voz da América, 04-06-2016).
A Guarda Nacional encontra-se do
lado de fora do Palácio, impedindo a
entrada de qualquer pessoa ou objecto (incluindo comida e bebida), mas
deixando o caminho livre para a saída.
Perante isto, importa
chamar a atenção para os prós &
contras do cerco como estratégia. Tal como eu já tinha dito anteriormente,
na política tal como na guerra, “quando
cercares um exército [Governo demitido/barricado de Carlos Correia], deixa uma saída livre”. Isto não quer dizer que
deixe o inimigo escapar – o
objectivo é “fazê-lo crer que existe um caminho para a segurança, assim evitando que ele lute com a coragem do
desespero”. Se quiseres «depois, podes esmagá-lo». Segundo os ensinamentos de Sun Tzu, devem acautelar-se três questões: evitar a junção das forças inimigas num mesmo
local; atacar o exército inimigo no
campo de batalha; e prevenir o cerco
de cidades fortificadas. Um cerco
prolongado acarreta grandes perigos
para quem está a cercar, podendo inverter
a vantagem para os que estão cercados (veja-se o exemplo de Hitler quando o seu exército cercou o
exército russo de Estaline durante o
inverno soviético. Estaline dilatou o tempo
até que os alemães ficassem suficientemente
fracos por causa do frio, da fome e da saturação para serem vencidos). Neste
caso, se o Ministério Público, o Governo de Baciro Djá e a Presidência da
República prolongarem o “cerco”, o tiro
pode sair-lhes pela culatra. As pessoas que estão cercadas, além de serem apoiadas por alguns veteranos de guerra, têm
apoiantes em diversos sectores, nomeadamente nas forças de defesa e segurança, além de estarem numa posição estratégica muito perto de um grande
quartel.
Por isso, é urgente pôr fim a esta situação
de “cerco”. Não podemos tolerar um novo 7 de Junho (como em 1998), em que a Junta Militar se barricou no referido quartel, acabando
por sair vitoriosa (Sun Tzu, 2007: 72, 78, 120).
Para terminar, e perante as
incertezas que ainda vivemos, deixo uma interrogação no ar: quantos falsos amigos de DSP & Jomav
ainda estão por revelar?
E também alguns dos
grandes clássicos da estratégia: Sun Tzu (“A Arte da Guerra”), Tucídides (“História
da Guerra do Peloponeso”) e Maquiavel (“O Príncipe”).
Caros leitores, hoje
trago-vos as minhas primeiras considerações
sobre o novo elenco governamental liderado
por Baciro Djá. No último post,
disse que era cedo para me pronunciar, mas agora já há alguns comentários a
fazer. Apenas um dia depois da tomada de posse, posso já apontar cinco falhas a este executivo: quatro
delas são habituais e já não
constituem novidade; a quinta é extremamente perigosa e pode constituir um mau
presságio para este novo Governo (e para o próprio Presidente da República
«PR»). Aproveito também neste post, e face a este cenário, volto a apresentar algumas das propostas do meu Modelo Político de Governação relativamente ao número de elementos e à igualdade de género.
Primeira falha – O novo Governo é
formado por 32 membros, entre 20 ministros e 12 secretários de Estado (RFI, 02-06-2016).
Na situação em que a Guiné-Bissau se encontra, não faz sentido ter um Governo
com esta dimensão, que implica gastos enormes e uma maior dispersão de recursos e tempo. Numa
situação destas, quando se procura
contentar a todos, é muito difícil evitar que se instale o sentimento de
alguma frustração, sendo obrigatória a criação de um órgão que funcione como cláusula-travão
para filtrar as propostas antes da
sua chegada junto dos órgãos competentes (Keane, 2009: 39-41; Leão, 2001: 270).
Se José Mário Vaz «Jomav» já se queixava
do elevado número de membros do Governo, é difícil acreditar que esteja de
acordo com este figurino. As áreas-chave
que ele enumerou (salvação da campanha do cajú, a produção de arroz e o
fornecimento de peixe às populações, água potável, energia eléctrica, melhor
educação, serviços de saúde e infraestruturas sociais) parecem não bater certo com este enorme elenco
Governativo (Voz da América, 03-06-2016).
Este é um ponto do qual os seus opositores
podem fazer um forte aproveitamento
político.
No meu
Modelo Político de Governação,
os ministérios devem corresponder e articular-se com as Áreas de Especialistas que compõem o órgão consultivo das Áreas de Estudos – Órgão Consultivo Multidisciplinar Imparcial «AE-OCMI», tal como eu já referi de forma muito superficial num post
anterior. No primeiro bloco do Modelo Político Unificador, o Governo
guineense passará a funcionar com 8 ministérios, na expectativa de terem no máximo 10 secretarias de Estado que serão
subdivididas em outras categorias administrativas. No
segundo e terceiro bloco há uma “lipoaspiração
governamental”, para ficarmos só com um dos órgãos – ou os ministérios ou as secretarias (entre 8 e 10). De
preferência, com aqueles que apresentem menores custos e maior viabilidade para a estabilidade política da Guiné-Bissau.
Segunda falha – Dos 32 membros do
Governo, apenas quatro são mulheres (uma ministra e três
secretárias de Estado). Aliás, o único ministério liderado por uma mulher diz
respeito à Mulher, Família e Coesão
Social. Esta situação reflecte a grande desigualdade de género patente na
sociedade guineense, profundamente desrespeitadora
dos direitos das mulheres – tanto na Assembleia Nacional Popular «ANP», nos
tribunais, nas Forças Armadas, etc. Colocar uma ministra apenas, e naquele
lugar em particular, transmite a ideia de um preconceito latente que encara as mulheres como domésticas, quando, na realidade, há
quadros femininos com grande potencial
tanto na Guiné-Bissau como na diáspora.
No meu modelo,
as mulheres deverão ocupar, preferencialmente, 50% dos lugaresde topo, seja no Governo, na Administração Pública,
ou em qualquer organismo, incluindo os privados. É necessária uma profunda mudança de mentalidades, em coerência com a mudança de discursos e de procedimentos
práticos exemplares, para que a Guiné-Bissau possa alcançar o sucesso.
Terceira falha – Está a faltar ainda a escolha do nome para
ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros, e a tomada de posse dos ministros dos Recursos Naturais e do Interior, que são áreas-chave. Espero que Baciro Djá não repita o mesmo erro de Carlos Correia, que tomou para
si a pasta dos Recursos Naturais, sem nunca ter chegado a escolher um ministro.
Baciro Djá, que está a ser nomeado Primeiro-Ministro «PM» pela segunda vez, e já estaria preparado para esta segunda
nomeação, deveria ter uma lista pronta
muito mais rapidamente. Quarta falha – O nome de Botche Candé foi apresentado como Ministro de Estado e do Interior, no
entanto, este não chegou a tomar posse. Numa conferência de imprensa, Botche
Candé disse ter sido convidado para
o cargo pelo PR através de telefone, tendo respondido que não
podia aceitar antes de consultar o seu partido. Apesar disso, afirmou que jamais trairia o seu partido, o PAIGC
(ANG, 03-06-2016).
Este caso levanta muitas dúvidas. Porque razão o PR José Mário Vaz «Jomav»
contactou Botche Candé e não outra
pessoa da confiança de Domingos Simões Pereira «DSP»? Porque razão não recusou, deixando que o seu nome
constasse na lista para depois tornar o
caso público? Será que Botche Candé não é uma das “toupeiras” de Jomav? De que
lado está Botche Candé? Até quando DSP fechará
os olhos e ouvidos ao facto de não
ter verdadeiros aliados dentro do PAIGC? Será que Botche Candé também esteve barricado? Recomendo a todos a
leitura da Arte da Guerra de Sun Tzu (em especial “A utilização de Espiões”)
e, de Plutarco, Como tirar partido/proveito dos seus inimigos e Como distinguir um bajulador de um amigo.
Penso que Botche Candé não está a contar toda a verdade. É provável
que tenha uma relação muito mais próxima
com Jomav do que está a querer transmitir. Este convite e integração na lista,
para um posto de alta responsabilidade,
por parte de alguém que já o demitiu, revela uma forte confiança da parte de Jomav. A conferência de imprensa de Botche
Candé poderá ser uma manobra de
populismo para tentar enganar a ala pró-DSP, de forma a que não desconfiem
do seu papel duplo no PAIGC. O maior
gesto de solidariedade para com DSP
seria barricar-se com o Governo demitido, e não andar em conversações com Jomav
para integrar o Governo de Baciro Djá. Estou convencido que DSP deveria ponderar seriamente uma retirada estratégica,
tal como já aconselhei.
Quinta falha e mais preocupante de todas - O PR entregou ontem um cheque da Agência
de Cooperação Guiné-Bissau/Senegal no valor de 500 milhões de francos CFA ao PM Baciro Djá, para a construção de
uma avenida com o nome do ex-PR João
Bernardo Vieira «Nino Vieira», que ligará a Praça do Império à zona
industrial de Bolola (ANG, 02-06-2016).
Esta ideia de homenagear
o ex-PR Nino Vieira não é nova: em
Abril do ano passado, o actual presidente da ANP, Cipriano Cassamá, apresentou a proposta de construção de uma estátua do antigo dirigente [Nino Vieira] em Bissau,
com o apoio de Cuba (GBissau, 30-04-2015). Estes
dois factos reforçam a minha tese de
que Cipriano Cassamá e Jomav estão em sintonia.
Tudo indica que Nino Vieira
terá uma estátua e uma avenida em homenagem ao seu contributo para a pátria. Contudo,
a sua morte, ainda por esclarecer, e
o seu passado, que deixou feridas
abertas, revelam que a sua figura provoca tensão na sociedade guineense, em especial pela forma como estes
gestos podem ser recebidos por um certo sector da classe castrense e da
sociedade em geral. É claro que Nino Vieira merece ser homenageado,
no entanto, é necessário um consenso
político-militar para ponderar as outras
figuras que também deveriam ser homenageadas desta forma, para criar um
ambiente mais pacífico e equilibrado. Neste momento, isto não é prioritário – há questões muito mais urgentes para
resolver e esta iniciativa passa uma imagem muito duvidosa sobre as prioridades
deste novo Governo. Desde quando o cheque se encontrava na posse de Jomav? É correcto entregar um cheque destes para iniciar a obra num período chuvoso da Guiné-Bissau? Parece que esta será uma tentativa de “puxar” os apoiantes do ex-PR Nino Vieira que ainda estão na ala
pró-DSP. Receber apoio é muito bom, mas é preciso ser realista: não seria este dinheiro muito mais bem aproveitado
numa escola, num hospital, nos quartéis, etc.? Além disso, há dúvida sobre o
posicionamento de Macky Sall, este cheque pode
ser um presente envenenado, tal como muitos outros que são “oferecidos” aos
países em dificuldades. Este acto deve ser ponderado
e corrigido, sob pena de ser utilizado para gerar ainda mais confusão, levando à queda do Governo e do próprio Jomav.
Conclusão. Este Governo
deve pautar-se pela moderação, reconciliação, diálogo e, na medida do possível, pela transparência junto da sociedade, da comunidade internacional e da
comunicação social. Em relação ao Governo demitido, ainda barricado, sugiro que
procure um entendimento, resolvendo
a situação sem o recurso à força.
Vou ponderar, num próximo post, apresentar um tipo de Governo que poderá vir a criar estruturas para uma verdadeira modernização política da
Guiné-Bissau.